sábado, 20 de abril de 2024

Desencanto (306)

 Deixa eu te contar, não existe feitiço capaz de desfazer o desencanto. 

Não teve um cristão, um mouro, um judeu, um filho de Deus ou do diabo para te dizer: bicha, tu vacilou feio, se planta. Realiza.

Desapega

Desatormenta

Segue teu rumo, que eu não sou mais caminho teu 

Me deixa, me erra

Cumpre o que tu prometeu…eu não quero: não queira.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

A Torre (307)

Eu sou tua ruína, te afastas de mim enquanto podes.

Mas será que ainda há tempo de sufocar o teu íntimo? Tua edificação em falos eretos já não ruiu? O suposto fracasso que te apontam e que tu se auto aflige? Eu já não sou irremediavelmente parte de ti? 

Abdicarás?

Experimenta! 

É só mais uma mordida em qualquer maçã proibida. Mata e se farta ao menos, prova do que te consome, se lambuza, impregna o cheiro, goza e faz gozar. 

O faz por quereres, só por quereres, já basta!

Quanto a mim? Ah! Tu és o meu abismo conhecido de longa data. Velha sombra amiga, a qual eu já sei dar o nome... DISTANTE.

Mas me deixa aqui, só mais um pouco. Deixa que eu me reconstrua, pedra por pedra, até não precisar mais.



quarta-feira, 28 de junho de 2023

Véspera (308)

Nosso amor morreu de véspera.

Nasceu.

Poderia ter florescido, crescido, brilhado com a força de mil sóis.

Mas morreu...

Morreu de futuro, apressado, engasgado, sufocado.

Morreu.

Morreram nossas filhas (gêmeas), que não virão.

Morreu nossa família, tão sonhada...

Sonhada por quem?

Morreu.

Morri sozinha.

Nadei, nadei, nadei...

Morri.

Morreu?

Resiliência (309)

 Ao se despedirem, não havia raiva, não havia rancor, não havia revolta, não houve luta, nem tão pouco pavor.

Estava consumado, ponto. 

A sina de ambas se cumpria. 

Uma primeiro, depois a outra, a esperar ...

E apenas a tristeza de um enfadonho destino a uni-las novamente.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

(Des)Caminho (310)

Desejastes, ainda que inconscientemente, desejastes o fim... Como um atalho, uma desculpa esfarrapada, para que pudesses remover a bem maldita pedra.

Mas tu não o sabias e nem o esperava... Se fez um novo caminho e terás então de aprender a conviver com teus demônios, que agora têm nome e habitam sob tua pele, sussurrando em teus ouvidos teus maiores medos, não somente aquele da essência natural, do deixar de existir, mas sobretudo aquele, este sim, teu fiel companheiro de jornada, aquele que tem nome de estigma, rejeição, julgamento de bocas amargas e sedentas por censura e recalque.

Da ferida que nunca cessa de sangrar, que se abre em carne viva, dia após dia, que demanda teus cuidados, que te consome, que agora te dá nome e que carrega o teu nome, na tentativa de dobrar-te, vencer-te, levar-te à exaustão. 

Mas não, para não dizer que não falei de flores: Não! Não! Não! 

A vida sempre encontra um caminho de se refazer, de se reinventar, de renascer, nem que seja a fórceps, como este amargo remédio que agora tu experimentas. Uma correção de rota, para abrir-te os olhos para tua beleza, força e dignidade.

Levanta-te, que o todo é muito maior que nós. Faz de tua condição uma fortaleza, mostra o caminho da autorressurreição para aqueles que esperam, que rogam todos os dias em prece por teu exemplo, em um ato de entrega e fé...para quem sabe um dia, quem sabe um dia...sermos dignos e capazes de agradecer a todas as pedras, a todos os demônios, conhecidos e desconhecidos.

Faz do descaminho o teu caminho e o de tantos outros iguais a ti.

Levanta! Que é tempo de renascimento e a vida te aguarda.

Nó (311)

Guardo tuas alegrias

Teus caminhos de laço encantado

Para meus pés

Labirinto

Fio invisível a nos acompanhar


Cultivo girassóis para que a luz te alcance

Um afago a te sustentar

Uma lembrança de casa 

tão distante

por onde quer que você ande


Embora esteja sempre contigo

Tua presença certa


Cheguei antes "para sinalizar"

Neste auto exílio (im)posto

Nossa missão


O véu a nos ignorar, distrair por entre vastidões secas, desertos úmidos, novos mundos


Aguardo então ser digna

Para enfim te desejar as boas vindas

Seja bem-vinda

Eras e Eras (312)

Para você que é meu sonho mais bonito

Mesmo quando eu tinha tudo, era a sua falta que eu sentia e persistia

A saudade tinha seu nome, sempre teve, mesmo antes de reencontrá-la, de saber quem eu era, de saber quem tu eras

E por eras e eras, procurei

Incansavelmente procurei por você

Até merecê-la 

Foi por você, meu sonho mais bonito

Foi por você, sempre

Tudo sempre foi por você.

Eu quero perder (313)

Eu quero perder

Eu quero me perder

Quero esquecer de mim, me refazer, desconstruir

Abandonar a invenção de quem eu sou, de quem nós somos

Uma ode à mudança constante, inevitável, irrefreável

À inversão do que julgo

Até me consumir

Me completar

Me confundir

Voltar

Ao redor e para dentro

Ser

É

Saber

Eu To-mar

Imerso na consciência de quem EU SOU

Na-da(r)

É

Uma ode ao amor! Ele há de permear nossas vidas e nos perdoar e a nós mesmos.

Uma ode à esperança!

Coragem!

Celebremos, é tempo de luzes!

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Anjo Azul (314)

Eu quero te contar de tua beleza,
não aquela que salta aos olhos,
mas aquela que só os atentos podem ver.
Deixe eu te contar de tua coragem
(de se submeter)
de bom grado e por escolha,
enfrentar as intempéries de um mar revolto em tempestade,
na tentativa de se tornar farol,
rastro de luz e esperança,
a tantos e tantos náufragos, quase afogados, em sua própria dor e agonia.
Deixe eu te contar de tua coragem
de experimentar o descaminho, o desamparo, o desalento, a ignorância...
por amor, só por amor,
para reconstruir, reordenar, reinventar,
deixar gravado o caminho magnético a seguir...a cura, tão rogada, tão suplicada, tão esperada cura.
És a resposta em forma de prece, a mão estendida.
Deixa fluir!
Não te preocupas, nem te questiones,
apenas seja Bendita!

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Eis-me aqui (315)

Eis-me aqui
Eu não sou ninguém
Eu não tenho nome
Sou distinguida por minha c(d)or
Por meu sexo e sexualidade
Por minha vulnerabilidade

Eu não tenho voz
Emudecida pela mordaça
Eu não tenho mãos para alcançar
Eu não tenho pés para caminhar

Eu não tenho rosto
Eu não tenho gosto
Eu não mereço amor?

Eis-me aqui, o teu cordeiro
A lutar, a lutar, a lutar

Emudecido que estou, não me calo
Amordaçada que estou, não paro

Subtraída, me multiplico
Estou em cada rosto tinto
Em cada uma que carrega, que gesta, que gera

Não me calo
Não me calam
Não me param

Eis-me aqui em ti.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PEIXES (314)


Tu és piscina azul e profunda.
Contigo editei meus traumas, curei meu quarto, alcancei o espinho que me perpassava, me recompus.
Já eu, FUI “el pecado que te dió nueva ilusión en el amor”. FUI “la aventura que llegó para ayudarte a continuar en tu caminho.”.
Tu se “afogou” em sentimento.
Nosso amor foi, é e sempre será páscoa, renascimento.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

(313)

Por que te assombras?
A luz também se veste de trevas,
esta que tu teimas em esconder, reprimir...eu vasculho, vigio e (me) reconheço.
Não temas!
O que a noite esconde, o Sol queima.
Ferve em tua dualidade, deixa-a brilhar...
que não há mal que dure,
não há o que a luz não cure.

terça-feira, 8 de março de 2016

PARTIDA (314)

Quis ser teu porto seguro, tua parada,
para onde tu sempre retornara.
Mas tu me disseste que não,
estivera só por esta caminhada
e partiste para tentar outra morada,
a silenciar a solidão que tu chamas (que fizeste) de casa.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

FOGO (315)



Tu chegaste com toda tua energia de renovação.
A atração inevitável à nação do fogo,
Que se consome ao calor e frenesi das chamas,
Que se alimenta do que há, porque tem (nho) fome...
Que mata, porque tem (nho) fome...
Que destrói para reconstruir coisas belas.

Trouxe consigo o sabor da novidade...
Um punhado de amor, permeado de dor e desassossego...

Depois de ti, as noites não são mais tranquilas...
Meus dias já não aquietam a mente...
Teimo em pestanejar, resistir ao hábito obsoleto...

O que fui já não me comporta mais...o que fomos já não nos basta...
Será que nossos caminhos ainda se cruzam?

Deixo-te assim, inacabada, como estou agora...alegria para recomeçar.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

DESENCANTO (316)

Enquanto te falo de amor,
tu me vens com o amaldiçoado recurso
e o põe em nossa cama...

Surpreende-me com o peso que atribui às minhas palavras.
Desconheço!
Teu coração embrutecido...
Minha ignorância...
Descompasso!

Enquanto acredito fazer-te o bem,
tu se prendes ao passado,
à vida que cabia no esforço de tuas mãos, que ainda te comporta e aos "ãos" que te fizeram história...

Teu dia está nublado, te falta o Sol a iluminar o caminho à tua frente.
Estou aqui, 
Mas o teu "interior está (a)podre(cido)" 
e o meu despedaçado.




terça-feira, 8 de abril de 2014

SERTANIA (317)

Faço de ti minha raiz.
Aquela que me nutre e sustenta.
Não importa o chão,
Não importa a morada.
Vento
Água
Terra
Aridez
Arado
Me alimento de tua sertania,
Da lua que queima ao meio dia e arde à noite.
Ah! Foi-se...
A sombra em meu caminho...
Dilacerada.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

COSTUME (318)

Visto-te como a uma roupa,
que adotei sob a alcunha de pele.
Desfazer-me de ti, me levaria mais do que ofereço...
Despida,
necessário seria me 
(re)compor,
tal qual colcha de retalhos...
coser-me em pedaços,
fragmentos,
recortes em memória,
mas teus signos,
caminhos estes arraigados,
traria.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

PROMETIDA (319)


Quando te vi (cega),
Tua luz me direcionava,
Aturdia e alumiava...
Tu estavas ali
E estavas à minha espera,
Eu te chamava...
Perguntei-te por onde andavas perdida e se a cá estavas
E tu me respondeste que sim (encontrara).
Confessei que sabia consciente, 
A boa nova que se anunciava,
Assopraram em meus ouvidos, a tua tão bem-vinda chegada
E tua pele, tua febre, minha morada...
Ah! Tua pele, tua febre, minha morada...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

SEM NOME (320)


Renegaste (a ti mesmo) tua própria natureza...
Como perdoar-se, se golpeaste quem deverias proteger - quem a ti adoravas e quem tu adoravas - incutindo-lhe desgosto profundo?
Desvirtuaste teu sentimento, tua guia...Perverteste teu fim (em si mesmo)...

Como suportar a angústia de rejeitar-se ?
Não há dor mais lacerante, mais solitária, mais silenciosa, mais desesperadora...
Não há pior castigo do que aquele que se impõe a si mesmo...
Não há pior claustro do que aquilo que já foi feito...

Resta-te apenas esperar pelo alento que o tempo poderá trazer-te e, enquanto não o vem...amargura tua estupidez cega, teu remorso...espera, espera, espera...pelo perdão que não será o teu próprio, porque este, não o virá. Mas mesmo assim espera...
Porque é só o que a ti (te resta).

segunda-feira, 21 de maio de 2012

CISNE (321)

Como te alcunhar?
será que tu me (cor)respondes?
prefiro chamar-te de TUA...
(particular)
há sempre um limite (teu)
enquanto percorre (meus) caminhos obsoletos...
(...)
Como se atreve?
Recôndita, tacanha...
(...)
te choco 
(insulto)
com a aspereza
de minha sinceridade TRAGADA, 
porque o meu AVESSO é a tua melhor MORADA.
(...)
e tu (?) que fazes?
(in)segura que estás, 
tão acostumada a justificar(-se)
e a mim não encontra o porquê...
e eu (?) que faço
diante de tua elegância singela?
(desconserto)
e eu 
que me propus a deixar-te nua...
(emudeço)
atenta aos teus passos,
tua audiência fiel,
plateia oculta,
despida em negro.